Entrevista a Miguel Freitas, 1º Secretário da AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve, no final do seminário «Next.Mov – Smart Region Summit», organizado por aquela entidade que agrupa os 16 municípios da região e que passou a ter a seu cargo a gestão dos transportes rodoviários regionais.

O Algarve Económico (AE) – Foram atingidos os objectivos que se esperava com esta iniciativa?

Miguel Freitas (MF) – O balanço é muito positivo. Tínhamos, em primeiro lugar, um grande objectivo que era dar voz ao Algarve e, de facto, na matéria das regiões inteligentes, o Algarve passou a estar no mapa, porque este é, indiscutivelmente, o melhor evento que se organizou, ao longo do ano, no país. É esse o feed-back que as empresas nos dão e que está a ser reproduzido nas redes sociais por todos aqueles que participaram nas sessões.  Os números são impressionantes: salas com mais de 500 pessoas a assistir às conferências, o que significa uma enorme qualidade dos oradores e do debate.

AE – Surpreendeu-o o número de pessoas que, ao longo destes dois dias, passaram pela sala de conferências e pela zona de show-room?

MF – Devo dizer que tínhamos uma previsão que estava muito próxima daquela que acabou por se concretizar: à volta de, no total, 6 mil pessoas que visitaram este certame, aí não houve surpresas.

Se alguma coisa nos surpreendeu verdadeiramente foi a enorme qualidade das empresas que se apresentaram neste certame. Foram o grande actor deste evento e esse era o nosso grande objectivo: mostrar que já se faz muita coisa boa na região e no país em matéria de sistemas inteligentes e as empresas corresponderam com uma mostra que julgo que dignificaria qualquer região em qualquer parte do mundo. Só aqueles que não vieram cá não perceberão aquilo que estou a dizer. 

Outro elemento importante foi o facto de, pela primeira vez, termos juntado as Autoridades Intermunicipais de Transportes, estiveram cá 20 das 23 existentes no país, duas Áreas Metropolitanas e o Governo Regional da Madeira para discutir o papel das autoridades intermunicipais regionais de transportes.

E aí ficou, claramente, um sinal de preocupação, isto é, houve uma transferência de competências para as autoridades intermunicipais em matéria de transportes, mas ainda não temos os instrumentos e o investimento necessário para as capacitar para esse desiderato. Portanto, esse grande objectivo que é colocar estas entidades a gerir os transportes públicos de passageiros rodoviários, precisa, ainda, de uma atenção muito especial por parte do Governo.

AE – Passaram vários governantes pelo certame, não falaram com eles sobre isso?

MF –  Naturalmente que todos foram sensibilizados para essa questão. Aquele que é o responsável por esta matéria, o secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, foi especialmente avisado sobre essa questão.

Mas não foi só o Governo que tentámos sensibilizar, foram, também, o Instituto de Mobilidade e Transportes e a Autoridade de Mobilidade e Transportes porque a administração central não pode julgar que, agora, que houve esta transferência de competências, isto já não tem nada a ver com eles. Tem que continuar a haver uma fortíssima colaboração entre a administração pública central e as associações de municípios para podermos cumprir este grande objectivo que é ter melhor mobilidade e melhores transportes públicos para as pessoas nas regiões. Não estamos satisfeitos com a forma como isso tem vindo a decorrer e, portanto, há, ainda, muito por fazer.

A.E – O que é que os algarvios podem esperar, a curto, médio e longo prazo, do trabalho que a AMAL tem vindo a fazer, em termos de mobilidade e transportes?

M.F – Desde já, passaram a ter – foi hoje apresentada – a primeira plataforma que permitirá uma interactividade  entre a Autoridade Intermunicipal de Transportes e os cidadãos, que, a partir de agora, poderão dizer aquilo que sentem e o seu grau de satisfação relativamente ao transporte público de passageiros.

Utilizaremos essa informação para fazer alguns ajustes em matéria de transporte público de passageiros rodoviário dentro da região. Esta aplicação permite que todos possam ter boa informação sobre horários, carreiras, sobre tudo o que é necessário para poderem ter acesso ao transporte público.

Ainda não estamos no tempo em que podemos dizer que vamos mudar as redes públicas porque é agora que vamos avançar com o Plano Intermunicipal de Transportes e só em Junho do próximo ano é que podemos ter uma nova rede de transportes na região.

E aí vamos trabalhar a dois níveis: no transporte permanente, as carreiras normais de transportes, mas vamos criar, também, um serviço de transportes flexível, isto é, estamos a fazer um estudo para perceber como podemos melhorar as deslocações das pessoas das zonas do interior para o litoral, para,   por exemplo, pessoas de Alcoutim ou Aljezur virem ao hospital de Portimão.

E vamos, também, trabalhar no sentido de tornar o transporte flexível para os turistas, isto é, trabalhar no caminho daquilo que é o pico de Verão, em que temos muito mais passageiros e, portanto, procuramos servir melhor não só os cidadãos algarvios mas, igualmente, aqueles que nos visitam. 

AE – A AMAL só vai ter a competência do transporte rodoviário intermunicipal. Mas um dos problemas com que as pessoas se debatem é o das ligações entre os diversos tipos de transportes, por exemplo, entre o autocarro e o comboio. Vão ter alguma intervenção, a este nível?

MF –  Não teremos nenhuma influência no transporte ferroviário, mas teremos possibilidade de ajustar horários entre aquilo que são os transportes ferroviários, os transportes aeroportuários e o transporte rodoviário. Está também no nosso plano estratégico o ajustamento ao nível das redes intermodais, é uma matéria em que vamos trabalhar.

AE – Há outros problemas que, ao nível da mobilidade, afectam residentes e turistas que têm, essencialmente, a ver com a situação de estaleiro permanente na EN 125 e as portagens na Via do Infante. Falaram nestas questões com os governantes que vieram a este seminário?

MF – Naturalmente. Aproveitamos sempre este tipo de oportunidades para dizer aos governantes que esta é uma região que, acima de tudo, carece de mobilidade e todos devemos trabalhar para melhorar as acessibilidades  e o transporte público intermunicipal, porque ainda haverá sete autoridades municipais de transportes, sete municípios que ficarão com a competência do transporte municipal e, naturalmente, é importantíssimo haver uma coordenação  entre essas sete entidades e a Autoridade Regional de Transporte, que é a AMAL.

Esse é o nível de articulação que estamos a começar a trabalhar. Depois, evidentemente, há que concluir as obras na EN 125 e no Aeroporto de Faro. Temos consciência que, sendo a mobilidade uma questão tão importante, nada será feito se não conseguirmos resolver a questão da infraestrutura da EN 125 e a questão da Via do Infante.

Essa é uma matéria política, relativamente à qual a região sempre se manifestou, sempre disse aquilo que pensava, que a EN 125 é uma rua e agora, com as obras, mais rua continua a ser. As obras não vão alargar a plataforma de mobilidade, é verdade que vai estar requalificada, vai ter zonas pedonais, cicláveis, isso é positivo, a região vai ficar melhor servida, mas o que é verdade é que, do ponto de vista da mobilidade,  isto não vem resolver o problema da região. E, portanto, a questão das portagens manter-se-á em cima da mesa.

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