Entrevista ao presidente da Câmara de Monchique, Rui André, no decorrer do Festival do Medronho, que se desenvolve ao longo deste fim-de-semana (1 e 2 de Abril).

O Algarve Económico (AE) – O medronho é visto como o produto principal de Monchique. Em termos económicos, essa importância é proporcional, é também o produto mais relevante, a esse nível?

Rui André – Não propriamente. O medronho é, de facto, um ex-libris da serra e uma actividade económica que tem alguma expressão. Neste momento, temos 85 destilarias legalizadas, mas são pequenas destilarias, cada uma só pode produzir até 2 mil litros de aguardente, o que quer dizer que não estamos a falar em termos de grande dimensão, de grande volume de negócios, temos outras áreas mais fortes.

Por exemplo, a água está a ter uma grande expansão em mercados europeus e asiáticos; a pedra cuja produção é exportada, praticamente a 90%, para a China e também a madeira. Esse é, talvez, o triângulo de ouro, em termos económicos, do concelho de Monchique.

Depois, temos, numa segunda linha, outros produtos, onde se incluem o mel, os enchidos e o medronho. Mas, o medronho é muito mais do que uma actividade económica, é um produto associado a Monchique não propriamente pela vertente económica, mas pela parte cultural e ambiental.

O medronheiro é, para o homem da serra, um sub-produto de outras actividades que desenvolve, através do qual cria mais alguma rentabilidade.

Cada vez mais, olhamos para o medronheiro com uma atenção especial, até porque não se faz só aguardente a partir dele, há, neste momento, uma grande aposta nas compotas e nos doces. Mas, coloco-o, acima de tudo, como uma bandeira mais cultural e de património do concelho do que propriamente económico.

AE – O processo de legalização das destilarias foi fácil ou difícil?

RA – Foi difícil. Quando a União Europeia obrigou a que os nossos produtores, a maior parte deles com uma idade avançada, tivessem que fazer um processo de legalização fiquei com algumas reservas, pois achava que havia outras formas de ultrapassar essa questão.

Mas, em boa hora a Câmara de Monchique criou um projecto e ajudou-os nessa fase, o que fez com que houvesse um ‘descomplicómetro’ das normas europeias. Isso tem ajudado muito a que os produtores se tenham afirmado, tenham criado valor daquilo que eram construções rurais, a maior parte delas, casas em taipa, sem muita riqueza. O único objecto de valor que tinham no seu interior era um alambique de cobre e pensei, nessa altura, que, com o desaparecimento do conhecimento destes produtores mais velhos, os filhos iriam guardar esses alambiques como recordação e iriam levá-los para suas casas, como objectos puramente decorativos.

Com este apoio da Câmara, ao nível da legalização, aconteceu uma coisa curiosa: as pessoas criaram investimentos nessas construções, criaram valor, mais condições, levaram água até lá, construíram casas de banho, criaram outras condições de higiene e conforto, o que, associado a um apoio que a Câmara tem dado na legalização, com o registo, as marcas e as garrafas, levou a que se desse a passagem para uma geração mais nova, que ganhou outro interesse em relação à actividade.

Hoje, as gerações mais novas olham para a produção de medronho com uma ideia de continuidade e vejo com satisfação que começam a fazer um investimento grande na substituição do eucalipto por medronhal, o que é bom, até porque, em caso de incêndio tem um factor de risco menos elevado.

AE – Como é que está o processo de certificação do medronho?

RA – O processo de certificação IGP (Indicação Geográfica Protegida) tem vindo a ser coordenado pela Direcção Regional de Agricultura, a Câmara apenas deu apoio.

Os proponentes acharam, e eu acabei por concordar, que era importante haver um ‘chapéu’ com a marca Algarve, porque se trata de uma certificação europeia e cria no consumidor, sobretudo o turista, uma ideia de qualidade e de segurança.

Não acho, hoje, que para o produto em si uma grande mais-valia, porque o medronho de Monchique diferencia-se do resto do Algarve e do país e, nesse sentido, acho que a certificação a fazer deve ser DOC (Denominação de Origem Controlada), o que vai fazer com que mostremos ter um produto único no mundo. Essa certificação europeia, que é a mais rigorosa, pode levar Monchique a outros destinos e a mercados onde, actualmente, não chega.

AE – Na sua intervenção neste Festival do Medronho, disse que há alguma dificuldade em colocar o produto em restaurantes e hotéis. Conseguem, apesar disso, escoar bem o medronho ou acaba por sobrar muito devido a essa circunstância?

RA – Às vezes, o facto de não haver problemas é que se torna, efectivamente, o problema. A circunstância de haver alguma facilidade no escoamento dos produtos de Monchique, que são de grande qualidade, não obriga os produtores a serem muito criativos, nem a criarem grandes estratégias de venda.

Este ano temos uma produção mais baixa, o que faz com que o medronho produzido seja ainda mais procurado.

AE – Isso teve a ver com os incêndios?

RA – Sim, mas não só, teve a ver, sobretudo, com as condições climatéricas adversas.

Mas, em relação à distribuição dos produtos, o que digo é que o Algarve tinha a obrigação de fazer o mesmo que Monchique fez, de assumir uma ligação entre os produtores e os restaurantes, em que estes assumem o compromisso de escoarem produtos da terra.

Acho que no Algarve, com a dinâmica que tem, ao nível do turismo, devia ser obrigatório que cada restaurante, cada hotel tivesse produtos do Algarve.

Obviamente que isto choca um bocadinho com as normas da concorrência, mas a verdade é que se tem de chamar à razão os proprietários de restaurantes e os gestores hoteleiros para a necessidade de haver este compromisso social para com a região.

A maior parte de hotéis compra em cadeia, em quantidade, mas é possível terem também produtos regionais e locais. Ouvimos aqui o exemplo do Supermercado Apolónia que comercializa seis marcas de medronho. Ainda assim é pouco porque temos 60 marcas, mas é um bom exemplo.

É importante que quem vem ao Algarve consuma produtos da região.

AE – Monchique é um concelho tradicionalmente virado para a agricultura e os produtos que decorrem dessa actividade, mas, actualmente, também já tem alguma dimensão turística e hoteleira, sobretudo na zona das Caldas. Há outros projectos nessa área e são possíveis de implantar, tendo em conta as restrições legais e ambientais a que o concelho está sujeito?

RA – Nós definimos uma estratégia de desenvolvimento turístico composta por quatro produtos fortes: turismo de natureza, turismo de saúde e bem-estar, turismo gastronómico e turismo cultural e criámos para cada um deles uma agenda própria com acções concretas, envolvendo os actores locais.

Este projecto está a correr muito bem, estamos a conseguir tornar o território mais dinâmico e atractivo. Isto tem resultado numa dinâmica interessante, não só na zona das Caldas com o novo hotel, o Macdonald, e a vila termal, mas noutros pontos do concelho, em que, nos últimos 3 anos, surgiram e foram licenciados 78 estabelecimentos de turismo, agro-turismo e alojamento local.

Monchique já é um concelho não só de passagem, como era há alguns anos atrás, mas em que as pessoas podem ficar e a verdade é que o número de dormidas tem, efectivamente, vindo a crescer.

No ano passado devemos ter tido à volta de 40 mil dormidas, o que, para nós, já é muito importante, muda completamente aquela imagem de que o símbolo de Monchique era apenas o medronho. Através deste trabalho e desta estratégia temos conseguido juntar a esse outros símbolos.

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