Primeira parte de uma entrevista ao director do Autódromo Internacional do Algarve, Paulo Pinheiro.

(Leia a 2ª parte da entrevista aqui)

O Algarve Económico (AE) – No final de Abril, o Autódromo vai receber uma prova internacional. Que competição é essa?

Paulo Pinheiro (PP) – Vamos ter o «V de V», que é uma prova do campeonato francês, com a participação de cerca de 90 pilotos e juntando a eles os restantes elementos das equipas, vamos ter aqui um total de 400 a 500 pessoas. É um campeonato de amadores, mas, como se vê, com uma grande participação de pilotos e equipas.

O Algarve Económico (AE) – Ao longo do ano quantas provas recebem?

PP – Este ano vamos ter um total de 10 provas.

AE – Qual é a mais importante?

PP –  É a prova do Campeonato do Mundo de Superbikes, que vai ter lugar entre 15 a 17 de Setembro. Só em termos de pilotos, pessoal de apoio, organização e jornalistas são cerca de 3 mil pessoas que aqui vão estar por essa altura.

AE – Em  termos económicos, tem ideia de quanto é que, em média, cada uma dessas provas vale?

PP – Baseado em estudos que fizemos em anos anteriores, achamos que, no total, o impacto económico deve andar na casa dos 15/20 milhões de euros para a região. A isto há que juntar a exposição mediática que o Algarve e o circuito têm fruto das corridas serem transmitidas em directo nas televisões do mundo inteiro.

AE – Quais são as outras valências de negócio do Autódromo, para além das corridas?

PP – As corridas, hoje em dia, são cada vez mais uma montra para que, depois, ao longo do ano, o circuito possa funcionar, no dia a dia, através de track days, apresentações de carros e de motas à imprensa e testes de competição, que têm crescido cada vez mais. Ainda na semana passada tivemos testes de Fórmula 1, que já há alguns anos não conseguíamos ter.

Graças a todas estas valências, temos uma ocupação da pista de 320/330 dias por ano. 

AE – Portanto, já não conseguem crescer muito mais?

PP – Sim, já não é muito fácil crescer. Aquilo que, agora, estamos a começar a fazer é ocupar a pista com testes de desenvolvimento de carros de série, a partir das 5 horas da tarde, que é normalmente, a hora que deixava de ter utilização. Como se trata de carros de série, que não fazem o barulho dos carros de competição, não perturbam nada e é mais uma nova área de negócio.

AE – Para além da pista, que outras valências compõem este empreendimento?

PP – Neste momento, conseguimos ter a funcionar o autódromo, o kartódromo, que também tem uma ocupação elevadíssima, a pista de todo-o-terreno, que tem crescido muito em termos de ocupação, nos últimos anos, quer na parte lúdica, quer na desportiva e também ao nível de apresentações.

Depois, há a vertente do hotel, que ficou pronto em Agosto do ano passado, e dos apartamentos. Isso já nos permite ter o grosso daquilo que era o projecto inicial concluído.

Neste momento, conseguimos fazer eventos que antes não conseguíamos, por termos o hotel e os apartamentos a funcionar.

AE – Sobretudo na vertente de apresentação de carros, não?

PP – Sim. Temos conseguido ganhar uma grande quota-parte desse mercado com marcas de topo. É muito mais prático uma marca fazer a apresentação aqui, ter os convidados alojados no hotel e de manhã demorarem dois minutos a fazer a passagem de um sítio para o outro.

AE – Essa é uma área de negócios que tem crescido muito?

PP – Tem, pelo facto de termos uma pista de primeira linha e de um hotel de 5 estrelas aqui ao lado, o que ajuda muito. 

Temos como clientes praticamente todas as maiores marcas automóveis do mundo. A vários níveis: enquanto fabricantes, no desenvolvimento de carros de série e de carros de competição e, também, nas apresentações à imprensa internacional. Essa é a melhor vertente de negócio para nós, pois nessas ocasiões, ‘vendemos’ a pista, o hotel, comissários, ou seja, temos uma série de serviços adicionais ao aluguer tradicional da pista que faz com que o volume de negócio seja superior.

Posso dizer que, se em Fevereiro e Março, tivéssemos três ou quatro pistas, seriam todas alugadas.

AE – Imagino que a base da esmagadora maioria dessas marcas esteja no centro da Europa, pelo que têm outros circuitos mais próximos. O que os faz escolher o Algarve?

PP – Claramente, a nossa região tem uma coisa fantástica, que é o clima.  O circuito é muito bom e isso é, também, um dos factores decisivos para nos escolherem. Julgo que termos a trabalhar connosco uma equipa jovem, mas muito profissional e já com alguma experiência, para além de uma postura ‘agressiva’ na procura de clientes também contribuem para isso. E depois, lá está, são nosso clientes uma vez, se as coisas correm bem, vão repetindo e voltando.

AE – Tem ideia do efeito que tem, em termos económicos, a actividade do autódromo para o concelho e a região?

PP – No início, as pessoas pensavam que as marcas vinham aqui, faziam o que tinham a fazer e iam-se embora. Nada mais falso.

Temos tido, nos últimos anos, eventos de grande dimensão cada vez mais frequentes, o que implica ter os clientes a ficarem alojados desde o Hotel Conrad, passando pelo Vila Vita, indo até ao Yellow, de Lagos. Ou seja, vão ficando em diversos sítios, utilizam o aeroporto de Faro, utilizam as rent-a-car da região, vão aos restaurantes algarvios, vão aos bares e criam um impacto económico que nunca conseguiremos medir porque é demasiado transversal.

Nesta altura, notamos que outras empresas, outros hotéis começam a ver o impacto real que os nossos clientes trazem ao Algarve. Porque depois há, também, outra consequência… há dois dias tivemos a visita do dono de uma equipa francesa que já fez um evento connosco em 2011 e que vai fazer outro e que comprou uma casa em Santa Bárbara de Nexe. E, porque gostou da região, até deslocalizou uma parte da empresa para cá.

E isto não é um caso pontual, acontece com alguma frequência, o que faz com que a região não beneficie apenas do negócio que resulta directamente dos nosso eventos. As pessoas gostam, vêm cá de férias e muitas, até porque, normalmente, são pessoas com grande poder económico, até acabam por comprar casa no Algarve.

AE – Também são procurados por empresas, não necessariamente da área automóvel, para aqui fazerem eventos, sobretudo, para os seus funcionários ou clientes?

PP – Sim, essa é também uma vertente importante. Começámos até o ano a fazer um evento com uma farmacêutica. Tivemos, o ano passado, um mega evento de uma empresa de telecomunicações norte-americana, que envolveu 1.500 pessoas.

É uma aposta que vamos reforçar, pretendemos criar uma Racing School ainda mais moderna, com novos equipamentos e uma vertente de preparação de pilotos muito mais vincada, porque há uma vertente de mercado claramente disponível para esse tipo de produto.

AE – Quais são os vosso mercados prioritários?

PP – Estamos muito focados e temos feito participações em feiras realizadas em países que para nós são muito importantes: Inglaterra, França, Itália e Alemanha, que valem cerca de 90% na vertente da indústria e dos eventos. O mercado espanhol também é forte, mas funciona mais na área dos clientes directos, na compra de bilhetes e de eventos no circuito, mas mais numa perspectiva familiar e não tanto empresarial.

AE – As empresas portuguesas não aderem muito?

PP – Por estranho que pareça é mais fácil para nós fazer eventos com empresas estrangeiras do que com portuguesas, que ainda mostram alguma resistência em vir de Lisboa ou do Porto até cá. Dá-nos mais trabalho e implica mais energia conseguir convencê-las do que a empresas estrangeiras, o que não deixa de ser curioso.

(Leia a 2ª parte da entrevista aqui)

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