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João Vieira Lopes, Presidente da Confederação do Comércio e Serviços

As grandes prioridades devem centrar-se na criação de condições de acesso das empresas ao financiamento, em particular por capitais próprios.

Chegaram esta semana boas notícias do INE. “O Produto Interno Bruto (PIB) registou, em termos homólogos, um aumento de 1,6% em volume no terceiro trimestre de 2016”, diz o resumo da estimativa rápida do Instituto. A confirmarem-se estes números, mesmo com eventuais ajustes, esta é claramente uma bolsa de oxigénio para a nossa economia. Além disso, as previsões que o Governo tem vindo a defender ganham consistência, tanto em termos de PIB como de défice. É uma inversão em relação ao primeiro semestre e um sinal positivo.

A explicação para esta variação reside num fator importante, que é o contributo da procura externa líquida, com uma aceleração das exportações de bens e serviços em comparação com a das importações de bens e serviços. Um efeito relevante terá sido sem dúvida o crescimento do setor do Turismo. Outro fator a relevar foi a melhoria do consumo privado na componente de bens não duradouros e serviços. O aumento do rendimento disponível das famílias poderá ter aqui algum reflexo.

Mas, infelizmente, esta estimativa rápida também traz uma leitura menos positiva: o contributo da procura interna no crescimento da economia portuguesa foi “negativo”, segundo o INE. Este sinal é portador de grande preocupação e põe em causa a sustentabilidade da retoma. A poupança continua a um nível muito baixo e continuamos a ter um fraco investimento, público e privado. E é fantasista acreditar que a retoma da procura interna e externa tenha outra solução que não passe pelo incremento destas componentes.

Uma retoma anémica do investimento privado e um subinvestimento público crónico – Portugal é o país com menor nível de investimento da UE, a par da Irlanda – são grandes freios para uma perspetiva de crescimento sustentado da nossa economia.

As grandes prioridades devem centrar-se na criação de condições de acesso das empresas ao financiamento, em particular por capitais próprios, em que esta proposta de Orçamento para 2017 se pode considerar, no mínimo, como uma oportunidade mal aproveitada. É, pois, necessário incentivar a poupança, tornando, por exemplo, mais atrativo o investimento em dívida pública pelos particulares. Ao mesmo tempo, e já que as regras europeias permanecem como travões a um maior investimento público, é fundamental acelerar a disponibilização dos fundos comunitários. Reconhece-se que algum esforço está a ser feito neste sentido, mas a um ritmo ainda muito aquém do necessário.

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