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Gripe Pediátrica: O olhar epidemiológico e os desafios clínicos

Dez 26, 2025 | Destaques, Opinião

A Gripe é, porventura, a doença respiratória mais conhecida da população em geral e um dos motivos frequentes de consulta aguda nos Cuidados de Saúde Primários (CSP) ou de urgência, nos hospitais. É causada pelos vírus influenza e é conhecida a sua sazonalidade. Por este motivo nesta altura do ano começamos a ficar alerta e corremos todos para nos vacinarmos ou para vacinar os nossos entes queridos mais velhos e com várias doenças.

As crianças neste tema, nunca foram uma prioridade. Temos sempre a falsa ideia de que são saudáveis ou de que têm apenas gripes ligeiras…. Mesmo quando espirram ou tossem parece-nos inocente. Com a agravante que as crianças não têm a mesma noção de etiqueta respiratória que tem um adulto.

A transmissão é feita pessoa a pessoa através do contacto com secreções respiratórias, objetos ou através de partículas em aerossol que são libertadas no ar e neste tema percebemos que até o contágio em idade pediátrica pode ser muito mais fácil. As crianças são vetores importantes para a propagação da doença, podendo transmitir o vírus antes do aparecimento de sintomas e com um período de transmissibilidade prolongado. As manifestações clínicas podem variar desde um quadro assintomático a um quadro grave que obriga a hospitalizações, mesmo nas crianças saudáveis.

Em 2024 foi publicada uma revisão acerca do impacto clínico da gripe na população pediátrica com menos de 5 anos na década pré-pandémica (2008/09 – 2017/18) que mostrou que o número médio anual de hospitalizações por gripe foi de 189 (41,3 casos/100.000 crianças < 5 anos) e que destas, 9/10 eram previamente saudáveis, com cerca de 95 mortes evitáveis e com custos associados a hospitalizações de, pelo menos, 2,9 milhões de euros, dos quais 66,5% provenientes de crianças saudáveis.

A Organização Mundial de Saúde recomenda a implementação de programas de imunização contra a gripe sazonal que incluam, sempre que possível, as crianças. A norma emitida pela Direção Geral da Saúde para a época sazonal de 2025/2026 está alinhada com esta perspetiva ao recomendar a vacinação de todas as crianças abaixo dos 5 anos e ao contemplar a gratuitidade da mesma para crianças abaixo dos 2 anos. Com esta medida espera-se obter no nosso país dados tão satisfatórios como os registados em Espanha, onde se observou uma redução de 70% na procura CSP e de 77% das hospitalizações após vacinação das crianças entre os 6 e os 59 meses.

A Gripe que, aparentemente, pode parecer uma doença simples traz desafios não só para os grupos de risco, mas também para a população saudável, da qual não podemos excluir a população pediátrica. Como Médica de Família procuro sempre antecipar soluções. A vacinação da gripe em idade pediátrica vem dar resposta aos problemas focados, evitando doença, melhorando a qualidade da vida das crianças e das suas famílias e evitando absentismo escolar e laboral bem como custos. A vacinação em idade pediátrica beneficia não só as próprias crianças, mas também os grupos de risco, dado o efeito de imunidade de grupo e o seu papel de vetores de disseminação da doença. Devemos ser todos proativos na adesão a esta medida.

LPM