O Algarve tem um “potencial agrícola forte”, mas só pode ser plenamente desenvolvido caso se construam infraestruturas que garantam reservas de água previsíveis para o regadio, disse hoje o secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP).
Em declarações à Lusa, Luís Mira destacou as possibilidades que o Algarve tem para desenvolver a agricultura, no final de um conselho consultivo regional realizado hoje pela Confederação, na sede da Associação dos Beneficiários do Plano de Rega do Sotavento Algarvio, em Tavira.
“O Algarve, como outras zonas do país, tem um potencial agrícola forte devido às condições climatéricas que tem, desde que seja dada a possibilidade de ter uma utilização de água permanente, com fluidez e com consistência, que é o mais importante”, defendeu Luís Mira.
Após mais de três horas de encontro com o setor agrícola algarvio, o secretário-geral da CAP apontou o exemplo do turismo, a principal atividade económica da região, para justificar a necessidade de investir em infraestruturas como barragens, que permitam aumentar as reservas de água, defendendo a viabilidade do setor na região.
“Se no Algarve não houvesse estradas nem aeroportos, o turismo também não se conseguiria desenvolver. A agricultura no Algarve tem que ter disponibilidade de água com alguma consistência, não pode um ano ter água e, no outro ano, incerteza. Portanto, têm que ser construídas infraestruturas que permitam gerir as coisas dessa forma”, argumentou.
Luís Mira considerou que “há condições técnicas para que o Algarve tenha outra dotação de água para o seu regadio e para as culturas que se fazem na região”, mas é preciso “exigir” ao Governo a criação de “infraestruturas que permitam essa estabilidade a quem é agricultor no Algarve”.
O secretário-geral explicou que o conselho consultivo realizado hoje em Faro se insere nas consultas que a CAP faz anualmente pelo país para ouvir as organizações de agricultores, conhecer os problemas que têm e transmitir informação sobre assuntos que estão na ordem do dia no setor agrícola.
Entre esses assuntos estiveram o Acordo do Mercosul, celebrado entre a União Europeia e o bloco da América do Sul (Mercosul) constituído pelo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, e a nova proposta da Política Agrícola Comum, indicou Luís Mira.
Sobre o Mercosul, Luís Mira disse que “a posição da CAP é que é um acordo globalmente positivo para a Europa e para Portugal”, porque pode dar “acesso a um mercado de 210 milhões de pessoas que falam português” e permite à Comissão Europeia “fazer fiscalizações” que não podia fazer até agora.
“Achamos que esse acordo é positivo, numa altura também geopolítica, em que os Estados Unidos aplicam taxas e tarifas às importações”, afirmou, frisando que esta incerteza levou a União Europeia a procurar novos mercados e a fechar um acordo que estava a ser trabalhado há mais de 20 anos e abre uma “oportunidade” para a agricultura portuguesa.
Luís Mira alertou, contudo, para a necessidade de Portugal ter de “fazer o trabalho de promoção”.
Outro dos pontos em análise foi a Política Agrícola Comum (PAC), cuja proposta para o quadro plurianual 2028-2034 “é uma má proposta, que prejudica muito Portugal”, afirmou Luís Mira.
“Globalmente há um corte de 20% no orçamento da PAC, quando o orçamento global da União Europeia aumenta 40%. E há uma destruição da arquitetura da PAC, como a conhecemos até agora, com uma junção dos fundos com o Fundo de Coesão, o Fundo de Transição Justa, o FEDER, o Fundo Social Europeu, o Fundo de Imigração, o Fundo das Pescas”, criticou.
Portugal deve “opor-se já” a esta proposta, que atribuiu um bolo global para todas estas áreas, que será dividido no país e não será Bruxelas a atribuir valores a cada uma delas, concluiu.
LUSA



