Entrevista a Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), feita à margem do seminário «Promover a Excelência na Hotelaria do Algarve» promovido pelo ISMAT em Portimão.

O Algarve Económico (AE) – Este vai ser o melhor ano do turismo algarvio?

Elidérico Viegas (EV) – Os dados estatísticos apontam para que este ano possamos atingir, pela primeira vez ao fim de 17 anos, as taxas médias de ocupação que tivemos no virar do século e que representam um chamado ponto crítico, ponto de viragem nas empresas, a partir do qual podemos ter capacidade para gerir a política de preços e rentabilizar os investimentos. As empresas estão muito debilitadas e descapitalizadas pelas sucessivas crises que foram acontecendo ao longo deste período.

No virar do século tivemos que enfrentar a liberalização do transporte aéreo, o que fez com que destinos mais distantes passassem a ser concorrentes directos da região. Perdemos para eles um número significativo de turistas.  

Depois, fomos ainda confrontados com a adesão ao Euro, o que conduziu a uma perda de competitividade das exportações portuguesas, designadamente,  no sector turístico. E, mais tarde, em 2008, com a grande crise internacional que afectou significativamente a capacidade das empresas.

Desde há 3 ou 4 anos a esta parte, temos vindo a recuperar e, este ano, também é previsível um aumento na procura que permitirá olhar para o futuro com algumas perspectivas positivas, do ponto de vista empresarial.

AE – Isso significa que, do ponto de vista das empresas, o panorama não é tão extraordinário como por vezes se quer fazer crer?

EV – O discurso nacional do ‘melhor ano de sempre’ é recorrente por parte, sobretudo, de entidades oficiais que não tendo muitos sucessos para mostrar, usam o turismo para anunciar sucessos atrás de sucessos, embora quando transpostos para as empresas não tenham a mesma dimensão e o mesmo impacto

AE – De qualquer forma, a que se deve esta recuperação? Na sua base estão razões de ordem interna ou temos, simplesmente, vindo a beneficiar de problemas externos?

EV – Infelizmente, temos de reconhecer que uma das razões que justificam estes aumentos na procura são mais de ordem externa do que interna. A instabilidade que vem afectando a generalidade da concorrência mais directa, sobretudo aquela que se localiza na Bacia do Mediterrâneo, tem contribuído, na sua quase totalidade, para esses aumentos.

É previsível que, à medida que que essa instabilidade vá sendo esbatida no futuro, comecemos a perder, progressivamente, competitividade, a não ser que desenvolvamos, a nível interno, um conjunto de acções que nos permitam enfrentar com sucesso esse aumento concorrencial.

AE – E isso está a ser feito?

EV –  Infelizmente, não vemos ninguém a fazer isso. Anda toda a gente mais interessada em anunciar sucessos do que em tomar as medidas que seriam necessárias e indispensáveis para que possamos enfrentar períodos menos bons que, fatalmente, irão ocorrer no futuro.

AE – O que seria preciso fazer?

EV – Uma meia-dúzia de coisas muito simples. Em primeiro lugar, cuidarmos da chamada envolvente, o que passa por uma responsabilização e empenhamento, sobretudo, do poder local, ao nível da requalificação dos espaços verdes e zonas urbanas e turísticas descaracterizadas e no fornecimento de serviços de apoio, como a higiene e limpeza, bem como na recolha do lixo.

Também é preciso actuar ao nível de serviços que são fundamentais não apenas para os turistas, mas também para a população residente, ao nível da saúde e da segurança, que é hoje, como se sabe, o primeiro factor de decisão na escolha do destino de férias e, portanto, é uma mais-valia competitiva que tem servido para justificar os aumentos de turistas e deve ser mantida no futuro.

Por outro lado, é preciso mantermos a nossa oferta ao nível das 4/5 estrelas que hoje é de cerca de 40 a 50%.  Para sermos competitivos pela qualidade teremos que ser capazes de manter esse rácio e para isso é preciso criar sistemas de financiamento e apoio às empresas que lhes permitam fazer as suas renovações, no sentido de manter essa qualidade.

AE – Em termos de promoção externa, o que é preciso melhorar?

EV –  A promoção é uma espécie de ‘calcanhar de Aquiles’ do turismo português, desde sempre, e, sobretudo, do turismo do Algarve. Até hoje, tem funcionado, basicamente, no chamado princípio da boa a orelha e através da satisfação daqueles que nos visitam e que funcionam como os nossos principais promotores.

Nunca tivemos, verdadeiramente, uma estratégia de promoção turística profissionalizada e envolvendo o sector privado. Temos tido uma promoção mais institucional e pouco comercial, ao contrário do que desejável e necessário.

Também nessa matéria há que evoluirmos para outros patamares de entendimento entre o sector privado e o sector público no sentido de dar uma vertente comercial à nossa promoção que, reconhecidamente, ela não tem tido.

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