Entrevista a Vítor Neto foi um dos organizadores da conferência «Sector Agrícola no Algarve», que decorreu no auditório do NERA, em Loulé, no passado dia 22 de junho.

O Algarve (OA) – Que objectivos tinha esta conferência?

Vítor Neto (VN) – O objectivo era muito claro: nós temos a consciência de que existe um certo desequilíbrio na estrutura económica da região, favorável aos sectores ligados aos serviços, à actividade turística, ao comércio e à actividade imobiliária e que existe a necessidade de reequilibrar essa estrutura.

O sector agrícola tem um peso, ao nível da criação de riqueza na nossa região, de apenas cerca de 3% quando, no passado, já foi de 12%. Entretanto, entrou em crise, mas nos últimos anos tem havido uma recuperação em várias vertentes, como a do sequeiro, da fruticultura, horticultura e da vinha, o que demonstra as suas potencialidades.

Com esta conferência quisemos mostrar que já estamos a produzir bastante e que é possível produzir mais, mas que também é importante dar essa informação ao conjunto da região e despertar os jovens, os empresários para a actividade neste sector, de forma a combater o panorama com que nos deparamos, que é ter termos uma grande parte da nossa área agrícola abandonada.

Portanto, este é um sector que queremos recuperar. A sua recuperação e reforço serão bastante importantes até para o sector do turismo, que está muito forte, mas também algo isolado, o que o fragiliza.

OA – Mas no que diz respeito ao turismo houve, no decorrer da conferência, algumas queixas de que é um sector que coloca muitos problemas à agricultura, nomeadamente ao nível da contratação de mão de obra, do preço dos terrenos e até da água. Acha que não é bem assim?

VN – Quando se fala na ‘rivalidade’ entre o turismo e a agricultura podemos colocar uma questão: então e noutras regiões do nosso país, no centro e no norte, onde o turismo tem uma força muito menor do que no Algarve, o que é que levou aí ao enfraquecimento e às dificuldades da agricultura? Não foi o turismo, foi a falta de políticas corretas que dessem estímulo à atividade agrícola.

É evidente que quando a atividade se torna muito forte num setor isso tem consequências na mão de obra. Mas se a atividade económica no Algarve for mais articulada, mais rica, mais diversificada, isso também leva a que as famílias se fixem nos territórios e possam até trabalhar em diferentes setores.

Neste momento, temos falta de mão de obra, e fala-se na imigração como sendo uma possibilidade de resposta imediata, mas a médio e longo prazo, a solução tem de estar na vontade das pessoas em se fixarem na região porque existe um conjunto de atividades que lhes despertam interesse, que geram emprego, que geram salários corretos, o que lhes permite ter uma vida mais equilibrada. Portanto, isto é um processo que temos de assumir.

Neste momento, temos uma imagem terrível, quando andamos na Estrada Nacional (EN) 125 ou na autoestrada, que é vermos centenas de camiões que todos os dia vêm de fora da região com mercadorias que não são produzidas no Algarve e que muitas delas poderiam ser.

Faz algum sentido estarmos a importar figos da Turquia e da Espanha, nós que já fomos dos maiores exportadores de figos? Faz algum sentido importarmos amêndoas da Califórnia e de Espanha, que não têm o sabor e a qualidade da nossa, que, entretanto deixámos de produzir? O Algarve tem um défice na nossa balança entre aquilo que exportamos e o que importamos, a nível agrícola, de 50 milhões de euros… não pode ser.

Atualmente, assistimos a uma crise a nível mundial que, eventualmente, até pode alastrar ao interior da União Europeia e não sabemos que consequências isso pode ter ao nível das transações comerciais. Por isso, termos a nossa estrutura produtiva mais equilibrada é bom para o futuro do Algarve, é até um seguro de vida, se as coisas correrem mal, temos as condições para poder avançar.

OA – No final da conferência, anunciou a constituição de uma Plataforma Agricultura Algarve. Em que é que consiste e como vai funcionar?

VN – A questão é esta: na conferência tivemos 150 pessoas, das quais 70 ou 80 empresários, 20 ou 30 universitários, dezenas de pessoas de instituições da região e das autarquias e intervenções de grande qualidade e o que queremos é dar continuidade a isto.

Criámos um grupo de trabalho, basicamente constituído pelas pessoas que participaram nos painéis e organizaram esta conferência, que vai reunir nos próximos dias para delinear o projeto de ação para o futuro. A Plataforma é o ponto de encontro entre os empresários dos diversos setores da atividade agrícola com as instituições (Universidade, Direção Regional de Agricultura, AMAL e associações).

OA – Que tipo de intervenção pode ter a Plataforma?

Para já há um problema de informação: na nossa região conhecemos mal a realidade da agricultura, aquilo que já se está a fazer. Mesmo os diferentes setores da agricultura muitas vezes trabalham perto uns dos outros e não conhecem bem o que se está a fazer.

Ora, temos que divulgar isso, temos que pôr as pessoas a saber o que é que já se produz em citrinos, em alfarroba… Há, também, que saber o que podemos fazer nas terras que eram dos nosso pais e avós e que estão abandonadas.

Dizem que temos um problema da propriedade, das parcelas e tudo o mais. Pois bem, vamos discutir, igualmente, essas questões, podemos encontrar soluções para que os proprietários se possam juntar e explorar em conjunto as suas terras.

OA – Uma das razões que levam a que muitos terrenos estejam abandonados é o facto de terem vários proprietários e havendo um que bloqueie qualquer solução, como a venda, por exemplo, torna-se praticamente impossível resolver o impasse. Não acha que seria importante que o Governo legislasse no sentido de tornar mais fácil resolver este tipo de situações para evitar que, por exemplo, 5 ou 6 co-proprietários fiquem dependentes da vontade de um?

VN – Estou de acordo com isso, mas se me pergunta qual é a solução digo-lhe que não sei, mas acho que devemos discuti-la, respeitando o sentimento que cada um tem em relação à sua terra. Pode não ser preciso encontrar soluções rígidas, podem-se encontrar soluções maleáveis, flexíveis, em que as pessoas possam em qualquer momento mudar a sua opinião mas sem perder o controlo e a propriedade dos seus terrenos.

As soluções de hoje não têm de ser as de há 30 ou 40 anos atrás. Agora, o que não pode haver é terras ricas e com potencialidades de produção de produtos de qualidade abandonadas.

Temos outros problemas, como o da água e da comercialização, que também é necessário discutir, de forma a tentar encontrar soluções.

A Plataforma é um ponto de encontro de diferentes componentes, em que se vai perguntar: o que é que vamos fazer a seguir? Pode decidir-se fazer, por exemplo, um seminário ou uma conferência sobre um determinado setor da actividade agrícola ou sobre a questão da propriedade ou do financiamento. O Algarve é a região que tem acesso a menos fundos comunitários. Por ter um PIB per capita superior à média nacional é considerada uma região rica, esquecendo-se que o que faz subir esse indicador são os setores dos serviços e do turismo.

Não temos sabido convencer as entidades competentes – o Governo e as instituições comunitárias – que o Algarve não pode ser todo tratado da mesma maneira porque na região há realidades muito diferentes. Nesta conferência estiveram entidades como a AMAL, a CCDR, a Direção Regional da Agricultura, a Universidade do Algarve e uma associação empresarial e verificou-se que há um certo consenso, o que é interessante e é um facto novo e muito relevante. O que não há depois é força política para transformar isto em propostas que possam pesar em Lisboa.

OA – Na conferência esteve lá praticamente o dia todo, a ouvir tudo o que se disse, o secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, Miguel Freitas, o que não é muito habitual acontecer, pois os governantes costuma aparecer apenas por uns minutos e vão logo embora. É sinal de que há grande interesse da parte do Governo nestas matérias?

VN – Ele conhece a realidade do Algarve e disse que ficou muito interessado pelo que ali foi debatido.

De resto, na vertente política, estavam ali pessoas, creio eu, de todas as áreas. E alguém falou disso? Nada. Do que se falou foi de agricultura, de uma forma interessantíssima, e acho que todos aprendemos. Eu, pelo menos, que acompanho estas coisas, fartei-me de aprender, fiquei maravilhado com o que ouvi.

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