Segunda parte parte de uma entrevista ao director do Autódromo Internacional do Algarve, Paulo Pinheiro.

(Leia a 1ª parte da entrevista aqui)

O Algarve Económico (AE) – A vertente hoteleira e de apartamentos está completa ou há mais fases para avançar?

Paulo Pinheiro (PP) – A parte dos apartamentos está completa. Relativamente ao hotel, fizemos tudo o que eram zonas comuns e uma ala de quartos e o nosso objectivo é todos os anos irmos concluindo um piso na segunda ala dos quartos. Isso significa que em 2 anos e meio, 3 anos teremos tudo completo. Também na parte das infra-estruturas exteriores queremos crescer mais um bocadinho, construir mais alguns equipamentos que nos darão maior versatilidade, mas o grosso principal do investimento já está feito.

O Algarve Económico (AE) – Quando se construiu este autódromo falava-se muito da possibilidade de receber um grande prémio de Fórmula 1. Até agora isso não aconteceu, irá alguma vez acontecer?

PP – A Fórmula 1 é algo muito especial e específico, é o pináculo do desporto motorizado, é a competição mais cara do mundo, onde estão os melhores pilotos. E, por ser algo muito especial, implica um investimento muito grande por parte de qualquer entidade que queira receber uma corrida de Fórmula 1, seja ao nível das especificações técnicas da pista, de segurança e infra-estruturas, seja ao nível do investimento financeiro que é necessário fazer para que a corrida venha.

Se investirmos 10 numa provas destas, vamos buscar 100, este é o rácio que, mais ou menos, os estudos feitos pelas entidades oficiais garantem. É, portanto, um bom investimento, mas é um investimento avultado, é preciso ter pulmão e fôlego para conseguir fazê-lo.

Da nossa parte, temos vindo a fazer aquilo que é a parte que nos compete: temos a pista homolgada, conseguimos trazer os testes de Fórmula 1 da Mercedes, que é a equipa tri-campeã do mundo, o que foi para nós algo muito importante, foi um marco que nos deixou muito contentes, até porque os testes correram muito bem. Foi batido o recorde de pista em 5 segundos em relação àquilo que era a nossa bitola, o que é extraordinário.

Trazer um grande prémio de Fórmula 1 para cá é um sonho, achamos que estamos hoje mais perto de o concretizar do que estávamos há um ou dois anos atrás, mas há um caminho que tem de ser feito, vamos fazê-lo devagar.

AE – Qual é o investimento necessário? Li, algures, que seriam necessários, à cabeça, 30 milhões de euros, é um valor dessa ordem?

PP –  A Fórmula 1 mudou no final do ano passado, deixou de ser gerida por Bernie Ecclestone e passou para um grupo americano, a Liberty Media, e vê-se que já há uma mudança de paradigma na forma como é gerida.

Já ouvi falar em muitos valores, 30 milhões, 15 milhões, 20 milhões. Em princípio, será mais de 15 milhões e menos de 30 milhões. Mas, chegar à parte do custo, do fee, será o culminar de um processo, de um caminho que temos vindo a percorrer.

E depois há que ver outros aspectos, como a questão dos patrocínios, dos bilhetes, decidir quem fica com o quê. Portanto, pode até acabar por não serem 30 milhões, mas 10, 5 ou 25, é preciso perceber qual é o modelo de negócio, como é que as corridas se vão organizar. Acho que, neste momento, ninguém saberá bem qual é o valor.

AE – No dia em que estamos a ter esta conversa surgiu a notícia de que a Malásia tinha desistido da Fórmula 1. Como é que interpreta isso?

PP – A entrada da Fórmula 1 num país é, normalmente, integrada uma estratégia bem definida, que é a de aumentar a sua exposição mediática, a sua visibilidade internacional ou para criar uma imagem diferente, em termos do nível do país… há vários objectivos.

Em relação à Malásia, o seu grande prémio teve um grande sucesso no início. Ao longo destes anos, julgo que serão à volta de 20, deverá ter cumprido os seus objectivos e o país terá decidido que já não se justifica manter esta aposta. Também acontece que, nos últimos anos, foi-se assistindo a uma diminuição do número de espectadores do Grande Prémio da Malásia, o que estará relacionado com a quantidade de corridas que começaram a ser organizadas em países próximos.

AE – Esta desistência não significa, portanto, que, em geral, a Fórmula 1 está em declínio e que desperta menor interesse nas pessoas?

PP – Não, a Fórmula 1 voltou a crescer nos últimos anos. Os dados a que tivemos acesso mostram que, quer a nível  dos telespectadores, quer ao nível dos espectadores em circuito, tem conseguido subir bastante.

E, este ano, com as novas regulamentações e o facto dos carros serem muito mais rápidos, acho que as corridas vão ser ainda muito mais interessantes. A Liberty quer torná-las mais ‘americanas’, com mais espectáculo, o que vai aproximar mais as corridas do público e ter um grande impacto em termos do aumento do número de espectadores. 

AE – Como é que lhe surgiu a ideia de construir um autódromo no Algarve?

PP – Olhando para trás, passámos por muita coisa para conseguir licenciar a pista, foram muitos anos a tentar conseguir as necessárias licenças, foi um processo complexo, mas conseguimos ultrapassar a parte burocrática e, depois, construir o circuito em tempo recorde.

No outro dia, estava a falar com um senhor da McLaren e ele dizia que Portimão é uma cidade muito pequena, quando comparada com as grandes cidades da Europa e do mundo é quase uma vila. O próprio Algarve, ao contrário do que pensamos, não é uma região muito conhecida, em termos mundiais. É conhecido em determinados mercados, mas não é uma potência mundial.

Só há uma coisa em que o Algarve é uma potência mundial, é no circuito que tem. Já ganhámos prémios de melhor circuito, há muitos pilotos que dizem ser este o seu circuito favorito, somos escolhidos pelas melhores marcas, temos um grande nível de ocupação da pista, tudo isto indica que temos um circuito de primeira linha, que consegue ombrear com qualquer outro no mundo. Portanto, alguma coisa devemos ter feito bem.

Foi um desafio, na altura, se calhar, de loucos, e agora está aqui, é algo impressionante, acho eu. As pessoas fazem esta estrada de acesso e não estão à espera de encontrar algo assim, com uma escala completamente diferente, que impressiona qualquer um e, quando olham para a pista, ainda mais.

Respondendo à pergunta, o porquê da ideia de construir o autódromo: foi por acharmos que o Algarve tem um clima fantástico, boas praias, bons restaurantes. A região tem tudo aquilo que é bom para se desfrutar de um evento, seja ele qual for. Precisávamos da infra-estrutura, do circuito e devido ao facto da Câmara de Portimão ter acreditado no projecto desde o primeiro dia e por termos conseguido reunir as condições indispensáveis, avançámos com o projecto.

AE – O autódromo ficou construído na altura em que a crise económica apareceu. Foi isso que provocou os problemas financeiros que se seguiram?

PP – Lembro-me que o dia em que fizemos a inauguração foi exactamente o mesmo em que o Governo reuniu, em Conselho de Ministros extraordinário, para nacionalizar o BPN. Foi, formalmente, o começo da crise em Portugal. E a crise foi muito forte, agora é que começamos a ter, historicamente, essa noção e aprofundou-se ao longo de vários anos, só a partir de 2013 é que as coisas começaram a melhorar um bocadinho.

Mas, independentemente disso, o que nos provocou um grande abalo e nos fez ter imensos problemas foi o facto do parceiro irlandês que tinha um contrato para nos comprar o hotel e os apartamentos ter falido. Íamos buscar ali uma fatia muito grande de financiamento para o projecto e, de um momento para o outro, não só ficamos sem aquele dinheiro, como tínhamos que pagar aos empreiteiros que estavam a construir aquilo, os juros de empréstimos, não havia receitas, eram só custos.

Foi uma fase muito complicada que culminou no Processo Especial de Revitalização (PER), em 2012, que nos permitiu reequilibrar as contas e obter os financiamentos necessários para acabar o hotel e os apartamentos.

Não foi fácil, como é óbvio, foram tempos muito, muito complicados, mas, felizmente, as coisas foram-se resolvendo, continuámos a trabalhar com as mesmas empresas, que passaram essa parte má connosco, o que foi muito importante e que agradecemos. Agora, não é um mar de rosas, mas  a situação está mais estável.

AE – Uma das críticas que ouvi em relação à vossa estratégia é que quiseram fazer muita coisa ao mesmo tempo, quando deviam ter avançado aos poucos. Concorda com ela?

PP – Em relação ao hotel e apartamentos, em função dos contratos que tínhamos, essa vertente era uma fonte de rendimento, não era um custo, se a outra parte tivesse cumprido, tinha sido tudo pacifico, nunca teríamos passado por aquilo que acabámos por passar e que nos fez desacelerar o nosso calendário em relação ao que era a versão inicial.

Construímos as infra-estruturas todas, as estradas, os arruamentos, a parte eléctrica, as telecomunicações. A estrada de acesso, por exemplo, fomos nós que a construímos, a conduta de água que vai abastecer as zonas aqui à volta fomos nós que a fizemos, a rede de fibra óptica, a iluminação pública, a ETAR, os depósitos de água… tudo isto foram infra-estruturas que construímos e que entregámos à Câmara, estamos a falar de um investimento, se calhar, superior a 12 ou 13 milhões de euros.

Não estou  a queixar-me, era a nossa obrigação, foi assim que o acordo foi feito, mas cumprimos, não tomámos a decisão de fazer primeiro o que era para nós e só depois o resto. Mas volto a dizer que se não tivesse havido o problema com a empresa que nos ia comprar o hotel e os apartamentos, nunca teríamos passado pelo que passámos.    

AE – A fase que está a viver agora era aquela que esperava viver logo no início?

PP – Era uma fase em que deveríamos estar em 2010, de forma a que hoje apenas nos tivéssemos de preocupar com o autódromo e o kartódromo e não com as outras vertentes. Era esse o plano original, acabou por não se cumprir, a vida não é como a gente quer.

AE – No total, qual é o investimento que aqui foi feito?

PP – No total, com o hotel e os apartamentos, trata-se de um investimento na ordem dos 160/165 milhões de euros.

AE – Nesta altura, é um projecto rentável, que gera mais receitas do que despesas?

PP – Nós temos EBITDA [sigla que indica os resultados antes de juros, impostos, depreciações e amortizações] positivo e, nos últimos anos, temos tido também resultados líquidos positivos, já começámos, a partir de 2013, portanto, a dar lucro.

AE – Quanto é que facturam, anualmente?

PP – Em 2016, devemos ter facturado à volta de 23/24 milhões de euros, foi o nosso ano melhor em termos de receitas.

(Leia a 1ª parte da entrevista aqui)

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